Aperto Geral
(AJ Fontes)
A distância entre onde estamos e onde desejamos estar é diretamente proporcional à necessidade.
Não consigo o arranjo algébrico da equação, mas o empirismo a mim não deixa dúvidas.
Eu morava em um apartamento da família no sexto andar de um edifício pequeno, antigo, próximo ao Holiday. Lembram? Havia um ou dois anos que meu Curriculum não atraía a atenção dos selecionadores das empresas. Nas agendas antigas, procurava número de telefone de colegas da faculdade e, quando acertava um, ele repetia o rosário de lamúrias idêntico ao meu.
Minha semana era distribuída em colecionar anúncios do Jornal do Comércio e Diário de Pernambuco no domingo; segunda-feira cedo fazia cópias xerox do Curriculum Vitae, entrava no ônibus, depois em filas nas empresas recrutadoras. Nos outros dias, esquecia o diploma e me interessava por qualquer serviço, contanto que remunerado. Era o jeito de sair escapando feito Houdini, pagando a luz um mês, a TELPE no outro e o condomínio de vez em quando.
Um dia fechei a porta do apartamento feliz da vida porque estava seguindo para o banco pagar a primeira parcela de uma negociação com a CELPE e, na volta, comprar o feijão e o arroz do mês, o cigarrinho e mais tarde tomar uma cervejinha.
Na Conselheiro Aguiar, atravessei duas transversais, quase fui atropelado por um carrinho desgovernado esquecido no estacionamento do CompreBem e cheguei ao banco no quarteirão seguinte.
Seria desconfortável só esperar a abertura do banco até às dez horas em uma fila na calçada sob o sol de verão, mas roncos estomacais acrescentaram algo mais ao estado geral. Talvez o pão. O fermento enche a barriga de gases. Pigarro, depois pigarro mais tosse, depois tudo isso e me afastar da fila porque era certo o estrondo denunciante.
Os vinte minutos seguiram com variações até a fila no caixa com saídas estratégicas ao sanitário por conta de pontadas. Com certeza foi o ovo. Será que estava estragado? Não senti cheiro ruim. Lá fui com alguma pressa ao WC. Alarme falso. Ainda bem. A fila se arrastava. Na porta de saída, guardei o recibo no bolso da camisa e uma cólica mais forte me fez parar. Senti um fio de suor escorrer pelas costas enquanto observava a calçada se alongar.
Apressei o passo na rampa de entrada do supermercado e nos corredores intercalei entre apressado e lento. Encontrei o feijão e o arroz. Eita! O açúcar está acabando. Puxa vida, cadê? O mal-estar se instalava na barriga.
Iniciei o processo de segurar o peido, temeroso de que pudesse ser o... ou a... Eita, dúvida danada! Solto? Não, vou me cagar! E saiu aquele fininho, apertado, que dura uma eternidade. Achei o açúcar, corri... quero dizer: andei um pouco mais rápido porque já estava parando, vez em quando, respirando fundo e apertando as bandas até me assegurar que normalizou e empurrava o carrinho com os punhos serrados na barra.
Desci a rampa vagaroso, o suor frio escorria abundante da cabeça, passando pelo pescoço, nuca e enxarcava a camisa. Deixei pra lá o pensamento do estado do recibo no bolso e cheguei à calçada. São dois quarteirões, somente. Parece mais distante que a vinda.
Apoiei na grade de um portão para aguentar mais um ataque. Olhos fechados, cortei a respiração, retesei os músculos da bunda e lacrei o rego. Repetia mentalmente: não vai sair, não vai sair. As bandas tremiam de exaustão, a sacola tremia na mão. Não vai sair, não vai sair. Os músculos não aguentavam mais e relaxaram enquanto repetia o mantra e percebi que a defesa ao inimigo foi eficaz. Refiz minha postura e continuei a lenta caminhada. A rua parece que espichou. Atento aos acontecimentos, passando a mão livre pelos muros deslizei os pés até o meio-fio, desci a calçada, atravessei depois de pedi passagem ao motorista que entrava na rua e subi a outra.
Falta um quarteirão, só um. Opa! Não vai sair, não vai... meio quarteirão. Uma mão apoia no meu ombro. O senhor está sentindo alguma coisa? A voz de uma senhorinha me desarmou. Desarmou meus glúteos. Agora, me cago. Mas o som pipocado do peido me aliviou e até sorri. A senhora, com olhos arregalados, se afastou.
Com o corpo vergado, caminhar de Charlie Chaplin, passei pelo porteiro. O senhor está bem? Balancei a cabeça e chamei o elevador. Ele poderia fechar a porta onde estivesse e chegar no térreo. Melhor, poderia estar aqui me esperando, mas está parando em cada um dos andares.
Subi desenganado, duvidando, mas insisti e repeti a frase embora saísse fraca da cabeça, as pernas tremiam para manter tudo fechado acima, a sacola escorregava pelos dedos molhados, alisava o indicador da outra mão na testa e o suor escorria. Parou e abriu. Saí e parei sob o ataque dos ataques.
Avistei a porta do apartamento, arrastei os pés amparando o corpo na parede. Não vai sair, não vai sair, não vai sair. Na porta, procurei no bolso da calça, retirei a chave. Não acertei na primeira, nem na segunda. Na terceira vi a porta do banheiro aparecer no fim do corredor. Os pés travaram e senti um certo relaxamento à medida que o fundilho se avolumava.
Impossível que depois de tanto esforço eu estava... e apalpei.
A prova encheu minha mão.
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