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Mostrando postagens de março, 2024

Vida

 Marília de Barros E eu que passei a vida inteira tentando escrever; todo seu tempo sem conseguir. Tive amores e os perdi. Trabalhei em plantões até adoecer. Pari um filho. Cresceu e ganhou o mundo. As netas, duas, seguem com a rédea da vida nas mãos. Agora, as letras chegaram para mim. Uma encantadora descoberta bem no momento certo. Valeu a pena esperar.

A flor do cacto

(Brenda Braga) O silêncio emudeceu as ruas. O medo, tomou assento nos olhos das pessoas. A tristeza, se insinuou no horizonte. Tudo ficou suspenso feito beija flor. A vida pareceu ter parado no meio do mar, Antes de chegarmos ao porto. Na incerteza do momento, Sem saber como será o amanhecer, Uma destemida florzinha Despontou no mês de abril. De tom laranja, cor de pôr-do-sol, Sobreviveu à aridez da terra e À dureza dos espinhos. Irradiou beleza, preencheu os vazios. E tudo ficou suspenso feito beija flor.....

Voa, Rolinha Serena

(Brelnda Braga)                                                 No topo da árvore,                              Rolinha Serena nasceu. De pequenina floresceu menina. Do ninho para os galhos saltou. Testou voos pela mata, flanou.  As asas bateram forte. Mirou longe, voou além mar. De tudo que viu gostou,  Quis aterrissar e ficar. O tempo passou...  Ao topo da árvore um dia voltou. Voltou para relembrar,  No ninho aconchegar, O coração esquentar.   Ouviram-se todas a cantar: “Fogo apagou, fogo apagou”. O peito da Rolinha Serena  De alegria estufou. Comemorou, amou, flutuou. Sentiu que pode voltar  Sempre que o coração suspirar.  Voa, Rolinha Serena, voa!                          ...

Brilho Falso

Ana Pottes                                                   Bandeiras desfraldadas de diversos tamanhos, cores e caras encobrem verdades que se aglomeram em pequenos, grandes, variados núcleos onde a razão nasce, cresce, viceja e não morre nunca. Cada qual com o seu cada qual.  A unanimidade é burra, assim dizia certo cronista de um país tropical ao falar sobre verdades cristalizadas. Ou os temas seriam dores? Dos múltiplos tamanhos que deitam nas alcovas da humanidade e não aceitam nem a alma como recompensa terrena. Vai saber...           Cada quadrado se fecha em seu espaço, sem que haja o reconhecimento do quanto se descamou peles formando feridas, verdadeiras chagas sem serem as santas.  Assim caminha a humanidade, atavicamente ligada ao sucesso dos folhetins que encobrem horas em torno das mesas, nas casas de luzes apagada...

O som da manhã, na minha janela

(Carmen Lúcia de Queiroz Pires) Entre acordada e dormindo Ouço o som da manhã Todos dormem em minha casa Ou penso que dormem Seus sons, ainda não escuto Ouço os sons que vêm do mato Ainda, não consigo identificá-los Acho que são dos passarinhos Na cidade os escuto Com baixa intensidade Misturado aos sons dos carros Aqui, aonde estou, seus cantos São mais nítidos e intensos Mais perto do meu coração Pertinho da minha janela Canta o bem-te-vi Imitando-nos com seu som Agora que eles me acordaram Despertando-me do meu "inho" Voam para outras paragens Penso em você, tão distante  Será que como eu, ouve O canto dos pássaros? Será que ao ouvi-los, Lembra-se de mim? Ou será que tua mente Teu coração, ocupados  Com outro astral, Continuam a dormir? Tirar você de dentro de mim Nessa manhã Onde escuto os sons do mato É algo tão improvável  Quanto você estar aqui!

Aperto Geral

(AJ Fontes) A distância entre onde estamos e onde desejamos estar é diretamente proporcional à necessidade. Não consigo o arranjo algébrico da equação, mas o empirismo a mim não deixa dúvidas. Eu morava em um apartamento da família no sexto andar de um edifício pequeno, antigo, próximo ao Holiday. Lembram? Havia um ou dois anos que meu Curriculum não atraía a atenção dos selecionadores das empresas. Nas agendas antigas, procurava número de telefone de colegas da faculdade e, quando acertava um, ele repetia o rosário de lamúrias idêntico ao meu. Minha semana era distribuída em colecionar anúncios do Jornal do Comércio e Diário de Pernambuco no domingo; segunda-feira cedo fazia cópias xerox do Curriculum Vitae, entrava no ônibus, depois em filas nas empresas recrutadoras. Nos outros dias, esquecia o diploma e me interessava por qualquer serviço, contanto que remunerado. Era o jeito de sair escapando feito Houdini, pagando a luz um mês, a TELPE no outro e o condomínio de vez em quando. Um...

Pacote de leite

Adriana Bezerra     Por que escolhi escrever abaixo desse título os meus sentimentos e ensinamentos que pude ter neste dia? Qual a importância disso para mim e por que não desistir da reflexão? Devo me ater apenas a dissertar algo em relação à criação puramente literária sem apresentar lição ou argumento? Ou construir, com os ensinamentos didáticos, uma obra técnica habilidosa com as palavras?      Assisti a um filme sobre uma família coreana, onde a avó descobre um riacho para plantar minari, uma planta que cresce em abundância e promove a saúde. Se essa planta cresce facilmente, ela pode ser compartilhada com um maior número de pessoas, fazendo o bem de graça. Será que posso utilizar a metáfora do pacote de leite para dar um sentido literal a ambas as partes, tornando o texto mais acessível e menos religioso sobre a obra divina que é a natureza, e a oferta do pacote de leite à casa onde resido?      Essa história serve como lição de qualquer man...

Por que, Waldir?

TACIANA VALENÇA   Ele viu tudo. Sim, estava sentado numa das mesinhas da calçada, descansando da correria do horário do almoço, quando tudo aconteceu.  Ultimamente, tendo feito promoções em algumas opções do cardápio, a casa estava sempre cheia, principalmente porque trabalhadores das duas grandes construções do outro lado da rua, dois espigões  erguidos num tempo recorde  na não mais pacata Rua dos encantos , estavam almoçando lá. O estrondo foi maior do que o estrago.  O caminhão, desviando de uma carroça, dessas carregadas de papelões para reciclar, acabou batendo no Uno vermelho que passava ao seu lado, deixando uma mossa na parte de traz do veículo e arranhando toda a porta do lado do motorista. O rapaz saiu sem cor de dentro do carro, após estacionar quase em frente ao seu estabelecimento. Muito solícito,  seu Waldir  puxou uma das cadeiras da mesa e perguntou se estava tudo bem e se queria beber alguma coisa. Ainda tonto, pediu uma água.  S...

O Sinistro Som da Guerra. A Paz do Poeta

  (Romero Falcão) Eu era criança, lembro de um parente de sangue distante que às vezes aparecia lá em casa. Ouvia da boca dos meus pais e irmãos que ele combateu na segunda guerra mundial e aparentemente voltou bem dos campos de batalha. Não perdeu braços nem pernas, nem estilhaço de granada atingiu seu olho. No entanto, o psiquismo foi tremendamente comprometido. Não podia ouvir o som da sirene da ambulância ou alguma viatura policial , que se atirava ao chão como se estivesse no front. O apito do navio e do trem também modificavam seu estado de espirito. Mas nada comparável ao sinistro som da guerra.  Ligo a televisão no início da terceira década do século 21, precisamente no mês de fevereiro de 2022. Ouço o som perturbador, o toque de recolher na Ucrânia. O aterrador toque que Anne Frank escutava do esconderijo da família, na Holanda.  Apesar da distância lunar da Ucrânia, sinto uma espécie de agonia como se o som da morte tocasse pra mim. Os ucranianos correm para o a...

Apresentação

A Boca da Palavra reúne escritoras e escritores da pós-graduação de Escrita Criativa (UNIFAFIRE - 23/24).  Somos diversas vozes contando histórias de vidas que, misturadas, mostram ideias, reflexões, sensações e emoções.  Tudo se torna palavra na boca da gente, e dialoga com quem nos lê.  Tem um pouco de tudo por aqui: poesias, crônicas, contos, haicais.  Pratos cheios para paladares diversos.  Sirvam-se.