O Sinistro Som da Guerra. A Paz do Poeta
(Romero Falcão)
Eu era criança, lembro de um parente de sangue distante que às vezes aparecia lá em casa. Ouvia da boca dos meus pais e irmãos que ele combateu na segunda guerra mundial e aparentemente voltou bem dos campos de batalha. Não perdeu braços nem pernas, nem estilhaço de granada atingiu seu olho. No entanto, o psiquismo foi tremendamente comprometido. Não podia ouvir o som da sirene da ambulância ou alguma viatura policial , que se atirava ao chão como se estivesse no front. O apito do navio e do trem também modificavam seu estado de espirito. Mas nada comparável ao sinistro som da guerra.
Ligo a televisão no início da terceira década do século 21, precisamente no mês de fevereiro de 2022. Ouço o som perturbador, o toque de recolher na Ucrânia. O aterrador toque que Anne Frank escutava do esconderijo da família, na Holanda. Apesar da distância lunar da Ucrânia, sinto uma espécie de agonia como se o som da morte tocasse pra mim. Os ucranianos correm para o abrigo sem saber o que irá acontecer. Eu corro pra dentro de mim mesmo, suplicando para não me abrigar na indiferença, esta peste que corrói nossa humanidade tão bombardeada e entretida por coisas banais , que acabamos normalizando toda forma de horror, desde que as bombas não explodam sobre nossas cabeças e os tanques estejam distantes das nossas crianças e idosos.
Como se não bastasse o tal estúpido conflito, a vocação bélica se repete explodindo em 2024, na Faixa de Gaza. Depois de tudo que a humanidade sofreu: duas guerras mundiais, Holocausto, bomba atômica, guerra do Vietnã, pandemias. O talento do homem para ver homens virarem ruína, destruição, segue sua marcha impiedosa, sangrenta. Desligo a tela grande. Escuto na tela pequena o som da Paz temperado pela guerra poética .Ouço concentrado a lei da polaridade nos versos de Gilberto Gil:
“Eu pensei em mim
Eu pensei em ti
Eu chorei por nós
Que contradição só a guerra faz nosso amor em paz “
É preciso ler, ouvir os poetas para compreender a brutalidade da raça humana
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