Por que, Waldir?

TACIANA VALENÇA

 

Ele viu tudo. Sim, estava sentado numa das mesinhas da calçada, descansando da correria do horário do almoço, quando tudo aconteceu. 


Ultimamente, tendo feito promoções em algumas opções do cardápio, a casa estava sempre cheia, principalmente porque trabalhadores das duas grandes construções do outro lado da rua, dois espigões erguidos num tempo recorde na não mais pacata Rua dos encantos, estavam almoçando lá.


O estrondo foi maior do que o estrago. 

O caminhão, desviando de uma carroça, dessas carregadas de papelões para reciclar, acabou batendo no Uno vermelho que passava ao seu lado, deixando uma mossa na parte de traz do veículo e arranhando toda a porta do lado do motorista. O rapaz saiu sem cor de dentro do carro, após estacionar quase em frente ao seu estabelecimento.


Muito solícito, seu Waldir puxou uma das cadeiras da mesa e perguntou se estava tudo bem e se queria beber alguma coisa. Ainda tonto, pediu uma água. 


Serviu e, sem mesmo ser convidado, sentou-se à mesa e comentou sobre o acidente.

Rapaz, o cara nem pra parar para ver se tinha amassado.


Pois é, mas pior é estar desempregado e nem imaginar como ter dinheiro para o conserto. Tô numa baita maré de azar, viu? Perdi o emprego, minha mãe morreu mês passado, e com ela a grana que ajudava na casa, e por aí vai.


Seu Waldir não teve como não se apiedar do sujeito. Conversa vai, conversa vem, lembrou-se que poderia contratá-lo como garçom, afinal, a demanda aumentara muito nesses últimos meses (graças a Deus). Acabou fazendo a proposta. Três meses de experiência e, se desse certo, assinaria sua carteira. Começaria no dia seguinte, assim já o ajudaria a pagar o prejuízo com o carro.


Para todo azar há uma sortesorriu aliviado, lembrando de uma frase que sua avó dizia. 

Samuel saiu agradecido e feliz, prometendo que não se arrependeria de dar um voto de confiança sem ao menos conhece-lo melhor.


Waldir o acompanhava, vendo-o atravessar a rua e pegar seu Uno vermelho amassado do outro lado. Era jovem, uns 30 anos, no máximo. Calça jeans apertada nas canelas, tênis branco e uma camiseta branca, por baixo de uma camisa de manga comprida xadrez. Ao menos era apresentável, pensou, e pareceu ser gente boa.

No dia seguinte Samuel chegou no horário marcado, recebeu uma rápida instrução e uma roupa. Dia cheio para um novato. Primeiro dia foi um pouco atrapalhado. Tomar nota dos pedidos, alguns com detalhes, verificar o número das mesas para não errar, tudo isso era absolutamente novo para ele. 


Mas estava se esforçando, e a cada dia melhorava, ficando mais atento e pensando em dar o melhor de si, pois precisava muito daquele emprego. Sempre se oferecia para ajudar após o expediente, guardar ou limpar alguma coisa, organizar as bebidas que eram servidas pelo seu Waldir e etc. Depois, cansados, sentavam e conversavam um pouco mais. Seu Waldir era culto, adorava cinema, sabia os nomes de todos os grandes atores e filmes, indicando para Samuel. Além disso, emprestava os seus melhores livros.


A amizade entre os dois só crescia, pois Samuel era muito inteligente, sacava rápido as coisas, além de muito sensível. As horas pós expediente se prolongavam, comentando livros, filmes, além das conversas sobre o dia no restaurante. Samuel deu ótimas ideias. Na verdade,fazia tempo que seu Waldir não tinha ninguém para compartilhar seus gostos e suas questões no trabalho, desde que sua filha fora morar no exterior, e isso já fazia 8 anos. Ficou viúvo muito cedo, tendo praticamente que criar a filha sozinho. Mas deu conta de tudo direitinho. 


Nada é por acaso. Ambos por estas alturas já agradeciam pelo dia do acidente.


Um dia, comemorando o sucesso dos almoços, com vendas duplicadas, beberam um pouco mais. Riram muito e se deram ao luxo de chorar, lembrando de episódios mais tristes de suas vidas. Acabaram adormecendo no próprio restaurante.


Os dias se seguiram sempre nesse expediente extra, os assuntos não acabavam. Pareciam, de repente, velhos amigos. Os gostos se afinavam e sentiam a felicidade maior da vida, que é ser ouvido, poder falar sobre qualquer coisa. 


Três meses se passaram, Samuel foi efetivado. Ao final desse tempo também estava carimbada uma relação de amizade profunda entre ambos.

Numa noite, procurando uma bebida na prateleira do bar, sentiu as mãos de Samuel na sua cintura, apertando seu corpo contra si. Apesar de surpreso, Waldir deixou. Ideias confusas passaram em segundos na sua mente, num redemoinho de emoções nunca sentidas. Numa coragem adquirida em longos goles, ele se virou, e suas bocas ansiosas se encontraram. As línguas quentes se tocaram e se beijaram longamente, se desvencilhando das roupas e experimentando um novo prazer. Na madrugada não existia mais mundo, apenas eles.


Acordou estranho, olhou para Samuel atravessado. Estava sem jeito, sem graça. Jamais imaginou ser capaz de ter uma relação com um homem. Gostou, gostou muito, mas não admitia. Chamou Samuel depois do expediente e tentou explicar que tudo fora um equívoco, que não mais aconteceria. E que se ele quisesse continuar a trabalhar com ele, por favor, esquecesse o que aconteceu. Pediu um tempo, não deixando mais que Samuel fizesse as horas extras.


O expediente acabava, Samuel se despedia cabisbaixo para casa, enquanto Waldir dormia todas as noites sentindo o corpo arder em brasa, só em pensar no que sentira naquela noite. Acabava se aliviando como um adolescente.

Os dias já não eram os mesmos. Ambos evitavam o olhar. Mas todas as noites pensavam nas conversas, nos momentos de entrosamento e na noite onde todo o proibido se fez paraíso e o sexo fora o de maior tesão que haviam experimentado nas suas vidas. Se descobriram em tudo, e por convenções, tiveram que se deixar. Não, isso não fazia sentido.  Suas tristezas passaram a ser percebidas por todos e até o movimento do restaurante caiu. Um lutosó deles.

Waldir entrou em uma grande depressão, adoecendo seriamente em dois meses. Samuel pediu as contas, e seguiu seu caminho, indo trabalhar num restaurante perto da sua casa.

Waldir faleceu após a doença, sem jamais ter deixado de pensar nos dois e nos momentos vividos. Samuel, ao saber da sua morte, trabalhou tanto e tão obstinadamente que se tornou sócio do restaurante onde trabalhava, comprando-o após dois anos. 


Com suas ideias, inovou em tudo, colocando uma pequena biblioteca e uma sala de projeção, para passar todos os filmes que tanto discutira com o seu amor. O público, mais seleto, lia livros e assistia aos filmes após o almoço. Sempre havia um bom filme.


Tantas e tantas vezes chorara, imaginando como poderiam ter sido felizes.


O nome do restaurante?

 

Waldir, sabor e arte.

 

Taciana Valença

 

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